Transexualidade: o que você precisa saber

O tema transexualidade, intensamente debatido nos dias atuais, é complexo e gera uma série de dúvidas relacionadas a diagnóstico, acompanhamento, tratamento e como agir em relação a esta condição. Tanto a maioria dos profissionais de saúde, quanto a população, em geral, conhecem muito pouco sobre o tema.

Um dos grandes desafios é diminuir a barreira do preconceito em relação aos transgêneros, e assim sendo, permitir que estas pessoas tenham as mesmas oportunidades que os cisgêneros ( pessoas que se identificam, em todos os aspectos, com seu gênero de nascimento).

A seguir vamos explicar os principais aspectos relacionados à transexualidade.

1. O que é transexualidade?

Transexualidade é a condição em que os indivíduos possuem  o desejo de viver e ser aceito como membro do sexo oposto, geralmente acompanhado pelo desejo de tornar o seu corpo o mais congruente possível com o seu sexo preferido, através de cirurgia e tratamento hormonal.

A identidade transexual deve estar presente de maneira persistente, por pelo menos dois anos, e não ser um sintoma de um distúrbio mental ( ex: esquizofrenia) ou associado com uma anormalidade cromosômica.

2. O que é disforia de gênero?

Um inconformismo acentuado entre o gênero vivenciado, expresso e o gênero designado ao nascimento, por pelo menos seis meses de duração, manifestado por pelo menos dois dos seguintes:

  • Inconformismo, não aceitação do gênero expresso e os caracteres sexuais primários e secundários
  • Forte desejo de se livrar das características sexuais do sexo vigente
  • Forte desejo pelas características sexuais do sexo oposto
  • Forte desejo de pertencer ao sexo oposto
  • Forte desejo de ser tratado como pertencente ao sexo oposto
  • Forte convicção que apresenta os sentimentos e reações do sexo oposto

3. Como definir  um homem trans ou uma mulher trans?

Homem trans, ou homem transgênero, é uma pessoa que nasceu no sexo feminino, mas que se identifica e vive como homem.

Já uma mulher trans é ao contrário, é uma pessoa que nasceu no sexo masculino, mas que se identifica e vive como mulher.

4. Como é a orientação sexual dos(as) transgêneros?

A orientação sexual do transgênero é independente da sua identidade de gênero. Traduzindo, o homem trans pode ter atração por homens, mulheres, ou ser bisexual, assim como os indivíduos que não são transgêneros. Se o homem trans tiver desejo por outros homens, ele é considerado homem trans homossexual, se tiver desejo por mulheres, ele é considerado homem trans heterossexual. O mesmo ocorre com a mulher trans.

5. Como abordar a transexualidade na consulta inicial?

5.1 Saber os objetivos do paciente é crucial

Embora vários irão procurar uma transição completa, incluindo cirurgia, outros irão escolher apenas receber suplementação hormonal, optando em não serem manejados cirurgicamente.

5.2 Transição de gênero jamais deve ser feito sem envolvimento de um profissional de saúde mental ( psiquiatra/psicólogo)

É essencial que o clínico ( endocrinologista) trabalhe em proximidade com o profissional de saúde mental, cuja colaboração é crucial nas seguintes áreas:

  • Realizar/confirmar o diagnóstico de disforia de gênero
  • Prescrever tratamento para o paciente durante a transição
  • Avaliar, diagnosticar, e tratar toda condição psiquiátrica concomitante – isto pode servir para reduzir a chance de arrependimento pós-operatório em indivíduos que serão submetidos à cirurgia de redesignação de gênero.

6. Tratamento hormonal

Para a realização do tratamento hormonal, o homen trans ou a mulher trans deve  ter o diagnóstico de  disforia de gênero persistente e bem documentada; capacidade para tomar uma decisão com pleno conhecimento e para consentir com o tratamento; ter pelo menos 18 anos de idade no Brasil (se menor de idade, seguir as normas para adolescentes);  se possuir problemas de saúde física ou mental,  estes devem estar bem controlados.

6.1 Mulher trans

6.1.1 Estradiol

A utilização de estrogênio por via oral, e especificamente, o etinilestradiol ( presente nos anticoncepcionais orais), aumenta o risco de tromboembolismo pulmonar. Devido a esse problema de segurança, etinilestradiol não é recomendado para a terapia hormonal feminizante. Para as pessoas com fatores de risco para tromboembolismo, recomenda-se  estrogênio transdérmico ( gel ou adesivo). O risco de efeitos adversos aumenta com doses mais elevadas, particularmente com doses específicas que levam a níveis acima dos normais para a mulher.

As pacientes com condições co-mórbidas, como obesidade, pressão alta, diabetes, que podem ser afetadas pelo estrogênio, devem evitar a administração por via oral se possível e começar com níveis mais baixos.

6.1.2 Estradiol combinado com anti-andrógenos

Uma combinação de estrogênio e anti-andrógenos é o regime mais comumente estudado para a feminilização. Os medicamentos comumente usados para reduzir os efeitos da androgenização pertencem a várias classes de medicamentos que têm tanto o efeito de reduzir os níveis da testosterona endógena como a atividade da testosterona nos tecidos e, portanto, a redução das características masculinas, como, por exemplo, os pelos do corpo. Como minimizam a dose de estrogênio necessária para suprimir a testosterona, contribuem assim para reduzir os riscos
associados com altas doses de estrogênio exógeno.

Os antiandrógenos comumente utilizados são o acetato de ciproterona ou a espironolactona.

6.2 Homem trans

6.2.1 Testosterona

A testosterona é normalmente administrada por via transdérmica ou parenteral (IM), embora
preparações bucais e implantáveis também estejam disponíveis. . Como o cipionato ou enantato de testosterona intramuscular são frequentemente administrados a cada 2-4 semanas, alguns usuários desses medicamentos
podem observar uma variação cíclica em efeitos secundários (por exemplo, fadiga e irritabilidade no fim do ciclo de injeção, agressividade ou humor expansivo no início do ciclo de injeção),bem como mais tempo fora dos níveis fisiológicos normais. Essas situações  podem ser mitigadas pela utilização de um regime de dosagem mais baixa mas com uma administração mais frequente, ou através da utilização de uma preparação trans-dérmica diária. O undecanoato de testosterona intramuscular  mantém estáveis os níveis fisiológicos de testosterona por cerca de 12 semanas e tem sido eficaz na tanto na condição de hipogonadismo como em indivíduos homens trans.
Há evidências de que a testosterona trans-dérmica e intramuscular alcançam resultados masculinizantes semelhantes, embora o processo possa ser um pouco mais lento com preparações trans-dérmicas. Especialmente de acordo com a idade do usuário, o objetivo é usar a menor dose necessária para manter o resultado clínico desejado, observando-se as devidas precauções para manter a densidade óssea.

7. Quais os riscos do tratamento hormonal?

Todas as intervenções médicas trazem riscos. A probabilidade de um evento adverso grave depende de muitos fatores: a auto-medicação, a dose, a via de administração e as características clinicas da pessoa usuária do serviço (idade, doenças concomitantes, antecedentes familiares,hábitos de saúde).

Os principais  riscos do tratamento para os homens trans ( utilizam testosterona) são: elevação importante do hematócrito,aumento de peso, acne, calvície, apnéia do sono, aumento do colesterol, doença cardiovascular, hipertensão , diabetes e desestabilização de transtorno psiquiátrico.

Em relação às mulheres trans ( utilizam hormônios feminilizantes), temos o tromboembolismo venoso ( relacionado principalmente com anticoncepcional e estradiol via oral), cálculos biliares, ganho de peso, hipertrigliceridemia, doença cardiovascular, hipertensão e hiperprolactinemia ou prolactinoma ( tumor na hipófise produtor de prolactina).

Cabe ressaltar que a reposição hormonal acompanhada por médicos especialistas, é a melhor maneira de evitar as complicações do tratamento. Muitas vezes os transgêneros realizam a hormonioterapia por conta própria, sem qualquer acompanhamento ou monitoramento, por não saber a quem recorrer ou até mesmo do receio de  não ter um acolhimento adequado na consulta com o  profissional, em razão de preconceito.

O tratamento hormonal, em doses similares às usadas pelas mulheres na menopausa ou no tratamento do hipogonadismo masculino em geral é suficiente para induzir às mudanças corporais. O uso de doses muito elevadas de estrogênio ou testosterona predispõe o aparecimento de complicações.

A equipe formada pelos endocrinologistas   Dra. Karina Freitas e Dr. Paulo de Tarso Freitas, a psicóloga Liliane Pereira, o psiquiatra Dr. José Vilela, o urologista Dr. Jovânio Fernandes da Rosa e a ginecologista Dra. Cássia Soares, está preparada  e à disposição para realizar o adequado atendimento em todas as etapas do processo transexualizador.

 

 

 

Doutora em Endocrinologia – USP/SP
Residência Médica em Endocrinologia – Hospital Brigadeiro/SP