Compulsão alimentar ( parte II): como tratar

Como abordamos no primeiro post, as causas do transtorno de compulsão alimentar são multifatoriais,
ou seja, são inúmeros fatores que se interrelacionam e acabam desencadeando o comportamento
compulsivo. Isto, pois, cada ser humano é extremamente singular, com suas vivências, historias,
experiências, carga genética e aprendizados constituídos ao longo de toda a vida. Desta forma, o
tratamento também segue a mesma linha de raciocínio, sendo multidisciplinar, visto que não tem como
apenas um campo de conhecimento dar conta de entender e tratar um transtorno mental, como é o
caso do transtorno da compulsão alimentar.
O excesso de privações gerado pelas dietas restritivas é um dos principais fatores que aumentam o
risco de se desenvolver a compulsão alimentar, portanto, comece entendendo esse processo e
experimente a começar a deixar de lado as dietas restritivas, pois quando você restringe alimentos para
emagrecer o seu corpo responde com estresse, aumentando o seu desejo e interesse em comer.  Isso
é consequência de um mecanismo de proteção e sobrevivência. Mas, consequentemente, aumenta a
sua obsessão por alimentos “proibidos” e o desejo de comê-los como “recompensa”, em momentos
mais difíceis.
A obsessão por dietas restritivas acaba, também, sendo uma consequência já do ciclo vicioso da
compulsão alimentar, pois na medida em que ocorre  um episódio compulsivo, o indivíduo acaba por
sentir-se tomado por um sentimento de culpa e não encontra outra solução a não ser fazer outra dieta
restritiva ou até mesmo alguns dias de jejum. O comedor compulsivo acaba se punindo após o episódio
e não consegue pensar em outras alternativa a médio/longo prazo. E por isso acaba novamente caindo
na armadilha do ciclo vicioso.
Procure um nutricionista para avaliar qual é a dieta mais adequada para você,  estabelecendo um plano
alimentar que seja gerenciável a longo prazo,  montando uma dieta que atenda as suas necessidades
calóricas, que seja variada, completa e com enfoque em alimentos que promovam saciedade e bem-
estar. Dietas proteicas, ricas em gorduras boas e com baixo consumo de açúcar são as mais indicadas.
O tratamento psicológico é também questão chave em casos de compulsão alimentar, principalmente a
Terapia Cognitivo Comportamental, visto que este referencial teórico aborda modificações de padrões
de pensamentos e crenças enraizadas que conduzem ao comportamento compulsivo, e posteriores
emoções de vergonha e ansiedade. Este tipo de tratamento centra-se na psicoeducação do
processamento emocional de cada indivíduo, na interrupção impulsiva dos comportamentos
disfuncionais e pode ajudar a abordar problemas emocionais subjacentes e crenças profundas que não
têm nada a ver com os alimentos, mas ainda geram o desejo de comer demais, restringir e continuar o
ciclo.
Além disso, o acompanhamento psicológico também se faz fundamental, visto que o impacto
emocional que o transtorno causa é bastante significativo e na maioria dos casos existem sintomas de
ansiedade/depressão/estresse associado como efeito após a compulsão alimentar, e aparecendo
também como causa. Sensações complexas de culpa e vergonha e consequências comportamentais,
como isolacionismo estão na maioria dos casos presente.
É construído um trabalho colaborativo entre o paciente e o terapeuta para identificar as causas,
emoções primárias de seus sofrimentos, identificação de situações ativadoras “gatilhos emocionais”
que acabam por disparar a emoção negativa e o posterior comportamento de comer compulsivo para
aliviar a emoção primaria. Desta forma, o psicólogo deve ajudar o paciente a conhecer seu próprio
processamento emocional, ter um diário da alimentação, para escrever sobre os gatilhos emocionais,
sobre as situações de estresse identificadas, anotar pensamentos sabotares e quais são as estratégias
de enfrentamento mais úteis.
Uma das estratégias que tem se mostrado cada vez mais úteis e com impactos positivos no bem-estar
geral dos indivíduos, são as práticas de mindfulness (atenção plena), mindful eating e as práticas de
auto-compaixão. Estes tópicos serão abordados mais detalhadamente no próximo post.

Algumas dicas importantes:

1. Fome real ou fome emocional?

Antes de se alimentar, avalie se realmente está com fome. Verifique de fato o que está sentindo.
Escute o seu corpo e os sinais que ele te envia, dentre eles, os sinais de fome e saciedade.

2. Não reduza quantidades, aumente a qualidade

Comer bem não é restringir quantidades, é ter a liberdade de comer de tudo, sem culpa, sem
restrições, com prazer, escutando as suas emoções e a sua fome. Faça as pazes com seu corpo, confie nele. faça escolhas carinhosas, cuide-o com amor e gentileza. Coma regularmente, nas refeições principais, para não ter picos de muita fome.
Uma mudança de mindset aqui se torna extremamente importante: tente modificar o pensamento “Eu
não posso comer isto”, para “Eu posso comer o que eu quiser, mas eu escolho comer este alimento em
detrimento desse, pois este irá me fornecer mais nutrientes, saciedade, bom-humor e mais saúde”.
Alimentar-se com prazer, qualidade e respeitando o seu corpo, é uma ótima forma de diminuir os
episódios de descontrole no caminho do tratar a compulsão alimentar.

3. Seja mais ativo e faça atividades divertidas

Descobrir novas atividades que te dê prazer, sem estar relacionado à comida é uma ótima forma de
diminuir a busca de alimentos como recompensa das emoções desconfortáveis.  Aprenda a reconectar-se. O que você gosta de fazer? O que lhe dá prazer? Tente experimentar novas e variadas atividades,
você pode descobrir um talento (dança, pintura, escrita), você pode tentar atividades relaxantes como
yoga ou meditação. Além de se divertir e relaxar, a sensação de bem estar será muito prazerosa!

4. Organize sua semana

Um bom planejamento auxilia na organização das refeições da semana,  para que você possa investir
na qualidade dos alimentos, e além disso, no empoderamento e no sentimento de auto-eficácia do seu
processo.
Faça uma lista de alimentos, experimente ir em feiras, e compras alimentos variados e com qualidade
nutricional. Além de ter opções saudáveis e organizadas em casa, o que é uma grande aliada,
diminuindo o risco de comer alimentos não planejados por impulso, você pode se surpreender como
pode ser divertido ter novas rotinas com o intuito de cuidar de si.

5. Tenha horários para comer e procure segui-los

 Existem muitos estudos que mostram os benefícios da prática de jejum em alguns dias da semana, ou
a prática do jejum intermitente, que está sendo bastante divulgada. Porém no caso do tratamento da
compulsão alimentar, este acaba sendo um dos principais desencadeados da compulsão, assim como
comer menos do que o necessário. Para evitar isso, crie uma rotina de horários para as refeições
principais, caso sinta fome, faça lanches saudáveis nos intervalos com alimentos de qualidade e que
lhe propiciem mais saciedade. Essa nova rotina pode ajudar a fortalecer sua tranquilidade no caminho
de tratar a compulsão alimentar.

6. Seja leve com você mesmo e com o seu processo

Entenda que tudo é um processo e leva tempo até seu cérebro reconhecer as novas rotas neurais
relacionados aos hábitos mais saudáveis. Entenda que você vinha fazendo isso por meses ou anos.
Agradeça por tudo o que o seu corpo já passou, por tudo o que já suportou e por tudo o que você já fez
e conseguiu com ele. Abrace e aceite todos os dias o seu processo de mudança. Quando as coisas
não saírem exatamente como você planejou, tente deixar a culpa de lado e ser gentil consigo mesmo.
Te convido a experimentar todos os dias nessa sua jornada com muita gentileza e auto-compaixão.
Vamos lá?

CRP 07/28043

Psicóloga graduada pela PUC/RS

Especialista de Terapia Cognitivo Comportamental

Aperfeiçoamento em Mindfulness para redução de estresse – Instituto AMAR CENTRE – Austrália

Compulsão alimentar ( parte I): como diagnosticar

1. Introdução

A compulsão alimentar é um transtorno bastante complexo, com múltiplas causas e
formas de manifestação . Traz prejuízos importantes em todas as instâncias que constituem um
indivíduo (emocionais, sociais/relacionais e físicas).
A prevalência da compulsão alimentar vem aumentando consideravelmente, principalmente em mulheres, e suas queixas tem se tornado cada vez mais frequentes nos consultórios de médicos, psiquiatras e psicólogos.

É o distúrbio alimentar mais comum, afetando 1-5% da população. Embora algumas pessoas que tem compulsão alimentar são obesas, alguns indivíduos estão presentes dentro de uma faixa de peso normal, tornando mais difícil o diagnóstico.
Nos próximos três posts iremos abordar o que é a compulsão alimentar, suas consequências  e como tratar, com   com  enfoque multidisciplinar e apresentaando novas técnicas de tratamento baseado em Mindfulness e  de auto-compaixão.

2. Definição

O Transtorno de compulsão alimentar (TCAP) é considerado um distúrbio alimentar
caracterizado pela ingestão exagerada de alimentos (normalmente de forma rápida), exibindo uma perda de controle, não conseguindo parar até que esteja muito cheio ou apresentando mal-estar, normalmente associado a sentimentos de culpa e/ou vergonha depois.
De acordo com o DSM-5 (Manual de Transtornos Mentais), trê dos seguintes
cinco sintomas devem estar presentes:

–  comer rápido

– comer até ficar muito cheio

–  experimentar desconforto

– comer grandes quantidades de alimentos quando não há fome real

– comer secretamente para que outros não saibam da extensão da alimentação e sentimentos de
nojo / culpa / vergonha depois

Os sintomas do transtorno podem começar na idade adulta precoce ou no final da adolescência. Normalmente o episódio de compulsão alimentar tem a duração de quase 2 horas e algumas pessoas têm muitos desses episódios durante o dia inteiro.

É importante salientar o fato de que é normal comer demais em algumas situações esporádicas, principalmente em festas de final de ano ou outros eventos sociais. Contudo, só podemos caracterizar um transtorno compulsivo quando o comportamento se torna um hábito, ocorrendo mais de 1 ou 2x por semana durante um intervalo de tempo.

3. Causas

Múltiplos fatores influenciam no desenvolvimendo da compulsão alimentar.
Algumas situações podem ter uma característica disparadora, como problemas de relacionamento (tanto amorosos como familiares/sociais), acontecimentos estressantes, dietas
restritivas, sentimentos negativos relacionados ao próprio corpo, depressão, ansiedade e tédio.
Nesses casos, a compulsão alimentar alivia temporariamente esses fatores. Porém,   a médio e a longo prazo surgem significativos danos a saúde de um modo geral.
Outro fator bastante comum é a transgeracionalidade da compulsão
alimentar, no qual o comportamento é aprendido no núcleo familiar e é reproduzido entre as gerações.

O ambiente e a genética  também podem estar envolvidos.

4. Consequências

As consequências do comportamento de comer compulsivo acabam atingindo todas as
instancias do indivíduo, gerando consequências relacionais/sociais, emocionais e físicas.

4.1 Consequências relacionais/sociais:

  • isolacionismo
  • dificuldade de manter relacionamentos íntimos (vergonha do corpo e culpa relacionada ao comportamento compulsivo)

4.2 Consequências emocionais

  •  depressão
  • ansiedade
  • culpa
  • vergonha
  • estresse
  • irritabilidade
  • insônia
  • desenvolvimento de outros transtornos mentais secundários e até tendência suicida.

4.3 Consequências físicas

  • aumento de peso com  risco para  obesidade
  • aumento dos níveis de colesterol,
  • gastrite,
  • hipertensão
  • cálculo renal,
  • desenvolvimento do diabetes mellitus tipo 2.

5. Conclusão

Muitas pessoas sofrem de compulsão alimentar e  suas consequências. Comece, neste momento,  reconhecendo tudo o que você esta sentindo, abraçando com totalidade toda a sua experiência vivenciada até este momento, assim como uma mãe abraça um filho que precisa de um carinho. Permita-se apenas reconhecer e aceitar, começando com os sentimentos de culpa/vergonha, aceitando que está tudo
bem em senti-los em certos momentos. Reconhecendo que você é um ser humano e que você é
perfeito e especial em sua totalidade, independente de suas imperfeições. Sofrimentos fazem parte da experiência humana e não há vergonha nenhuma em sentir e compartilhar isto. Convido você a iniciar o seu processo de mudança com uma disposição para a gentileza para consigo próprio.
Venha conosco e empodere-se de seu processo de mudança.
No próximo post iremos abordar o tratamento multidisciplinar do transtorno da compulsão alimentar.

 

 

CRP 07/28043

Psicóloga graduada pela PUC/RS

Especialista de Terapia Cognitivo Comportamental

Aperfeiçoamento em Mindfulness para redução de estresse – Instituto AMAR CENTRE – Austrália

ANSIEDADE E SEUS DESAFIOS

A ansiedade tem sido considerada um dos grandes problemas da atualidade.

A vida moderna e urbana, a pressão e o estresse cotidiano geram esse estado emocional que, quando muito intenso, acaba prejudicando a saúde do indivíduo e diminuindo sua qualidade de vida.

A ansiedade é a sensação de temor, receio, medo ou angústia em relação a uma ameaça ao bem estar físico ou emocional, seja ela pode ser real ou imaginária. É um sentimento de apreensão desagradável e vago, decorrente do modo como interpretamos as situações.

Parece-se muito com o medo e sua diferença reside no fato de que o medo é uma resposta a uma ameaça real, enquanto na ansiedade o fator de estímulo tem características subjetivas, em geral difíceis de definir.

A principal característica da ansiedade é uma excitação, uma aceleração do pensamento como se a mente estivesse elaborando uma maneira de se livrar do perigo e das incertezas, de modo a obter novamente o controle da situação e voltar a uma sensação de repouso e conforto. Pode ser desencadeada quando uma pessoa se depara com situações novas e desconhecidas, por preocupações e conflitos aparentemente insolúveis ou ainda quando a situação contém alto valor afetivo.

A ansiedade foi sempre uma companheira inseparável do homem. Na pré-história, para os homens das cavernas, era um sinalizador de alerta diante do perigo iminente e real, necessária para sua proteção e sobrevivência. Muito tempo se passou e os perigos também mudaram. Os desafios do homem moderno são outros, mas tornaram-se muito mais constantes. Diariamente as pessoas enfrentam problemas que podem deixá-las tensas e ansiosas. A luta pela sobrevivência continua, no entanto, o que interpretamos como perigo hoje transcende em muito ao perigo a que nossos ancestrais enfrentavam. Atualmente, a perda de status, de conforto, de poder econômico, de afetos e amizades, a auto exigência e a competitividade da vida são fatores mais que suficientes para gerar preocupação e apreensão em relação ao futuro e disparar o estado ansioso.

Nem mesmo as crianças estão livres da ansiedade. Ao contrário, as exigências dos adultos, cada vez maiores, com agendas cheias de compromissos para os filhos, diminuindo o tempo de brincar e o lazer, o aumento da violência, são fatores que contribuem para o aumento da ansiedade nesta fase.

Um pouco de ansiedade é normal e necessário, pois nos prepara para enfrentar as dificuldades e os perigos da vida, nos coloca num estado de prontidão que nos ajuda a tomar decisões e agir. Quando excessiva, pode produzir problemas físicos e comportamentais, prejudicar o desempenho, além de provocar angústia e sofrimento ao indivíduo.

A ansiedade patológica caracteriza-se pela elevada intensidade e prolongada duração. Em vez de contribuir para o enfrentamento do problema, atrapalha, dificulta ou impossibilita a sua resolução. A partir podem surgir quadros psicopatológicos de Transtornos de Ansiedade: Síndrome do Pânico, Fobias, Transtorno Obsessivo-compulsivo, entre outros.

A ansiedade se manifesta por meio dos seguintes sintomas:

. respiração curta e/ou ofegante;

. pulsação ou respiração acelerada;

. palpitação ou taquicardia;

. tensão muscular;

. boca seca;

. suor excessivo;

. tremor;

. sensação de “bolo na garganta”;

. aperto no peito;

. problemas de estômago; náuseas;

. insônia.

Como administrar a Ansiedade?

O primeiro passo para administrar a ansiedade é identificá-la.

O que me deixa ansioso? Quando fico ansioso? O que eu estou sentindo é proporcional ao fato ou não?

Responder a essas perguntas nem sempre é uma tarefa fácil, mas um passo importante seria começar a procurar os motivos que provocam a ansiedade.

Após identificá-los, os próximos passos seriam: desenvolver a consciência de viver no presente, manter uma perspectiva realista dos fatos, realizar atividades físicas, bem como exercícios de respiração e relaxamento.

Dessa forma você estará colaborando para o alívio da ansiedade e auxiliando na sua administração.