Dieta de baixo carboidrato e diabetes tipo 1

Antes da descoberta da insulina, a vida das crianças com diabetes mellitus tipo 1 era mantida com restrição de carboidratos. Após o advento do tratamento com insulina, a ingestão de carboidratos recomendada foi aumentada sem trabalhos clínicos que provassem superioridade. Nos anos 80, a dieta pobre em gorduras e contendo até 60% da energia a partir de carboidratos tornou-se o padrão. Apesar de avanços médicos e tecnológicos,o manejo do diabetes mellitus tipo 1 ainda  permanece insatisfatório na maioria dos pacientes. Dados estatísticos mostram que apenas 20% das crianças e 30% dos adultos atingem bom controle do diabetes. Um grande desafio é o controle da glicemia pós-prandial ( pós-refeição), o qual é um determinante da hemoglobina glicada. Mesmo com análogos de insulina modernos, um desbalanço entre a absorção de carboidratos e a ação da insulina tipicamente existe após as refeições.

A dieta de baixo carboidrato é definida com a ingesta ≤ 20 gramas a 50 gramas por dia de carboidratos ou ≤ 5% a 10% de carboidratos como proporção das calorias diárias.

Em em estudo realizado pela universidade de Harvard, com seguimento médio de pouco mais de dois anos, e publicado recentemente no conceituado  jornal Pediatrics, mostrou que dos 300 participantes, cuja ingesta diária de carboidratos era na ordem de 36 ± 15 gramas de carboidratatos por dia, 97% atingiram a meta de controle proposta pela Associação Americana de Diabetes. A média de hemoglobina glicada atingida ficou em torno de 5,7% ( ou seja, dentro dos níveis de pacientes não diabéticos ), uma redução em torno de 1,5% da hemoglobina glicada inicial. A média de glicose no sangue foi de 104± 16 mg/dl.

O índice de eventos adversos foi baixo. Apenas 2% foram hospitalizados nos últimos 12 meses, 1%  tiveram hospitalização com cetoacidose diabética e 2% por outras razões. Hipoglicemia severa foi infrequente ( apenas 2% dos casos).

O nível de satisfação dos pacientes com a dieta foi em  nível de de muito bom a excelente em 86% dos indivíduos.

Os níveis de triglicerídeos foram menores, assim como os níveis de HDL ( colesterol bom) e LDL ( colesterol ruim) foram maiores. A dose diária total de insulina reduziu. O peso também reduziu. Os dados obtidos também não mostraram efeito adverso na velocidade de crescimento  das crianças  com a dieta pobre em carboidrato, porém pesquisa adicional deve ser realizada para confirmar esse dado.

A dieta com baixo carboidrato, portanto, pode permitir o controle excepcional do diabetes mellitus tipo 1 sem aumentar o risco de efeitos colaterais. Assim sendo, as  complicações crônicas do diabetes a longo prazo podem ser prevenidas.

Embora os resultados são promissores, estes achados não são suficientes para serem interpretados como suficiente para justificar uma mudança globalizada no manejo do diabetes. Estudos adicionais são necessários para determinar qual o grau de restrição de carboidrato é necessário para atingir esses benefícios, o regime ideal de insulina para acompanhar essa dieta ( com ênfase especial em evitar a hipoglicemia severa), a segurança e eficácia.

Se você portador de diabetes mellitus tipo 1 tiver interesse em realizar o tratamento nutricional com dieta de baixo carboidrato, todo o cuidado é necessário. É imprescindível que o endocrinologista ajuste o seu esquema de insulina, oriente a monitorização da glicemia capilar, acompanhe a evolução e solicite exames periódicos de controle . O acompanhamento de uma nutricionista também é essencial para  elaborar o seu cardápio,  realizar os devidos ajustes, tirar as dúvidas em relação aos alimentos que podem ser consumidos e auxiliar na adesão ao tratamento. Realizar essa dieta por conta própria não é recomendado, pois  pode acarretar riscos à sua saúde, especialmente em relação à possibilidade de hipoglicemia severa e cetoacidose diabética.

Fonte: Management of type 1 diabetes with a very low-carbohydrate diet. Lennerz B et al. Pediatrics, May 7, 2018, pg 1-9.

About Dr. Paulo Freitas

Especialista em Endocrinologia e Metabologia Conselheiro do Conselho Regional de Medicina Presidente da Câmara Técnica de Endocrinologia do CRM Membro da Câmara Técnica de Registro de Especialistas do CRM Médico Concursado da Secretaria de Estado de Saúde atuando na função de Regulador e Teleconsultor

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