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Todo diabético tem alto risco cardiovascular?

Um dos grandes temores de quem tem diabetes é o receio de ter sua expectativa ou qualidade de vida afetada, principalmente por conta de um risco aumentado para  sofrer um infarto, derrame cerebral ou amputação de membros inferiores. Mas será que todos os diabéticos são iguais, ou seja, tem um risco cardiovascular aumentado? Ou será que existe uma população diabética cujo risco é mais baixo, podendo ser até mesmo próximo da população sem diabetes?

Neste mês de julho as Sociedades Brasileiras de Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, e Diabetes, publicaram um posicionamento em conjunto que trata da questão supra-citada. Neste post serão abordadas as principais recomendações relacionadas à estratificação do risco cardiovascular.

O posicionamento definiu que existem quatro grupos de pacientes diabéticos classificados de acordo com o risco cardiovascular: baixo risco ( < 10% de chance de ter um evento cardiovascular em 10 anos); risco intermediário ( risco entre 10 e 20%); risco aumentado ( risco entre 20 a 30%); risco muito aumentado ( acima de 30%).

Estratificação do risco cardiovascular

1) Diabéticos com baixo risco

Fazem parte deste grupo os pacientes que possuem os seguintes critérios:

  • Homens com menos de 38 anos e mulheres com menos de 46 anos de idade
  • Não tenham os fatores de riscos descritos nas tabelas 1, 2 e 3 abaixo:

 

Tabela 1 – Fatores de risco

Duração de diabetes maior que 10 anos

História Familiar de doença coronariana prematura ( menos de 55 anos nos homens e 65 anos nas mulheres)

Presença de Síndrome Metabólica

Pressão alta em tratamento ou não

Tabagismo

Filtração glomerular ( renal) menor que 60 ml/min/1.73m2

Albuminúria acima de 30 mg/g de creatinina

Neuropatia cardíaca autonômica

Retinopatia diabética

 

Tabela 2 – Aterosclerose subclínica

Escore de cálcio arterial coronariano  >10 U Agatston

Placa na carótida incipiente (espessura da camada íntima >1.5 mm)

Angiotomografia de coronárias com uma placa definida

Indice tornozelo-braquial <0,9

Aneurisma da Aorta Abdominal

 

Tabela 3 – Doença aterosclerótica clínica

Síndrome coronariana aguda

 Infarto agudo do miocárdio ou angina instável

Angina estável ou infarto prévio

Derrame cerebral aterosclerótico ou ataque isquêmico transitório

Revascularização de carótidas, coronárias e periférica

Insfuciência vascular periférica ou amputação de membro

Doença aterosclerótica severa ( obstrução >50%) em qualquer território arterial

Importante mencionar que o escore de cálcio nas coronárias é o melhor exame para rastrear e indicar  a presença de placas de gorduras nas artérias. Porém, apesar da sua utilidade, ao permitir re-estratificar uma parcela de pacientes com baixo risco para riscos mais elevados, não é um exame fácil de ser obtido por uma boa parcela de pacientes, visto que pode não estar disponível em centros de cidades do interior, bem como a dificuldade em obter a cobertura pelos planos de saúde.

2) Diabéticos com risco intermediário

Fazem parte deste grupo os pacientes que possuem os seguintes critérios:

  • Homens  entre 38 e 49 anos e mulheres entre  46 a 56 anos de idade
  • Ausência  dos fatores de riscos apresentados apresentados nas tabelas acima.

3) Diabéticos com risco  alto

  • Homens acima de 49 anos e mulheres acima de 56 anos de idade
  • Homens ou mulheres de qualquer idade, com fatores de risco para o coração ou doença ateroesclerótica subclínca (tabelas 1 e 2).

4) Diabéticos com risco muito alto

  • Pacientes de qualquer idade com doença ateroesclerótica clínica (tabela 3).

Importância de estratificar o risco cardiovascular

A definição do risco cardiovascular permite que possamos identificar uma parcela de nossos pacientes diabéticos com risco cardiovascular mais baixo, que não necessitam de um tratamento com metas mais agressivas, tais como utilizar estatinas ( medicamento para reduzir o colesterol) mais potentes e em doses mais altas, indicadas para pacientes com risco cardiovascular alto ou muito alto.

Calculadora para estratificação de risco cardiovascular

As sociedades médicas que elaboraram esse posicionamento participaram da elaboração do aplicativo que já está  disponível para computadores, tablets  e celulares, com a finalidade de propiciar ao médico assistente uma ferramenta que permite realizar o cálculo do risco cardiovascular para cada paciente, levando em conta todos os critérios supramencionados, e definindo qual o tratamento recomendado para cada caso.

 

 

 

 

 

 

Doutora em Endocrinologia – USP/SP
Residência Médica em Endocrinologia – Hospital Brigadeiro/SP

A insulina de hoje não é mais aquele fantasma do passado

É comum as pessoas terem conceitos equivocados sobre o papel  da insulina no tratamento do diabetes. Podem ter ouvido falar: ” Eu comecei a insulina e minha perna foi amputada”.   Nós sabemos que a insulina não é a razão da amputação da perna, mas o paciente fica com isto na mente, e a insulina torna-se um grande medo, um verdadeiro fantasma. É dever do médico ajudar o paciente a superar esse preconceito.

Os médicos tiveram uma parcela importante de culpa em incutir o temor dos pacientes em relação à insulina. Era comum, no passado, o profissional  ameaçar o paciente dizendo : ” Se você não caprichar na dieta, vou ter que lhe prescrever insulina na próxima vez”. Ou seja, associando à insulina como algo ruim, um castigo.

Muitos estudos tem mostrado o tempo que leva o médico a realizar uma modificação necessária no tratamento. É a chamada inércia terapêutica. Tem sido demonstrado que algumas vezes o paciente permanece fora da meta de tratamento, com a diabetes descompensada por anos, e mesmo assim, o profissional toma a conduta de ” dar mais uma chance” ao paciente. Particularmente quando o paciente tem sintomas de deficiência de insulina, tais como perda de peso, urinar muito, muita sede, aumento do apetite e visão turva, a introdução de um medicamento oral para reduzir a glicemia não surtirá efeito.

A insulina de hoje não é a mesma do tempo dos nossos pais ou avós. Temos melhores análogos de insulina ( insulinas geneticamente modificadas), temos canetas para aplicação de insulina, e agulhas mais finas e mais curtas. A aplicação de insulina tornou-se mais fácil, prática, indolor, segura, e portanto, mais aceitável por parte dos diabéticos.

Não há mais justificativas, com o conhecimento e a tecnologia no tratamento do diabetes, que médicos protelem a introdução da insulina. Agir tardiamente contribui de maneira decisiva no aparecimento de complicações micro e macrovasculares ( retinopatia, amputação, impotência, insuficiência renal, infarto e derrame cerebral).

Os análogos de insulina, tanto os de longa ação, quanto os de ação ultra-rápida tendem a causar menos hipoglicemias e uma menor variabilidade da glicemia, quando comparados às opções de  insulinas disponíveis no passado ( NPH e Regular). Algoritmos para ajuste na dose de insulina são disponibilizados aos pacientes, que permitem um auto-ajuste na dose de insulina prescrita, afim de atingir o alvo terapêutico, e permitindo uma maior independência do paciente.

É preciso conscientizar a população que a insulina é uma arma importante no bom controle da diabetes e prevenção de complicações, e sua indicação jamais deve ser retardada pelo profissional de saúde, quando sua utilização estiver indicada.

 

 

 

Especialista em Endocrinologia e Metabologia
Conselheiro do Conselho Regional de Medicina
Presidente da Câmara Técnica de Endocrinologia do CRM
Membro da Câmara Técnica de Registro de Especialistas do CRM
Médico Concursado da Secretaria de Estado de Saúde atuando na função de Regulador e Teleconsultor

Dulaglutida no tratamento do Diabetes Mellitus tipo 2

Dulaglutida é uma medicação da classe das incretinas, usada no controle do diabetes mellitus tipo 2, através de uma aplicação subcutânea a cada 07 dias. Sua eficácia e segurança foi testada em estudos de Fase 3 no programa AWARD.

O diabetes tipo 2 é uma doença cuja prevalência vem aumentando, caracterizada por uma perda progressiva da célula beta (produtora de insulina), levando ao aumento da glicemia, que está associado ao aumento no risco de infarto, derrame cerebral, amputação de membros inferiores, insuficiência renal crônica e cegueira. Controlar a glicemia é crucial para evitar estas complicações. Várias classes de medicamentos via oral e injetáveis estão disponíveis no mercado para o tratamento do diabetes. Entretanto, hipoglicemia e ganho de peso estão entre as limitações de alguns agentes.

A dulaglutida é um análogo do hormônio GLP-1, o qual é liberado pelas células L intestinais em resposta aos alimentos, e estimulando a produção de insulina dependente de glicose, retardando o esvaziamento gástrico, e aumentando a sensação de saciedade. Estudos em modelos animais mostram que os análogos do GLP-1  promovem um aumento no número de células produtoras de insulina e diminuem sua destruição. Estas ações, resultando nos efeitos redutores da glicose, menor risco de hipoglicemia, e potencial perda de peso, tornam os agonistas do receptor do GLP-1 um tratamento atrativo para o diabetes tipo 2.

Dulaglutida mostrou nos seis estudos comparativos, eficácia superior à medicação exenatida ( outro análogo de GLP-1 de aplicação diária), insulina glargina, metformina e sitagliptina, com um número maior de pacientes atingindo a meta de hemoglobina inferior a 7% e 6.5%. Em relação à outro análogo do GLP-1 (liraglutida), mostrou eficácia semelhante.

A perda de peso com  dulaglutida 1.5 mg foi  na média de 03 kg ao longo de 06 a 12 meses, mantendo-se ao longo de 24 meses.

O principal efeito colateral é gastrointestinal, incluindo náusea, diarréia e vômitos ( em até 20% dos pacientes). Geralmente ocorrem no início do tratamento e atenuam rapidamente.

Considerando a eficácia da dulaglutida, a segurança, o menor risco de hipoglicemia, a comodidade de administração ( apenas uma vez na semana), a boa tolerabilidade, e o potencial para promover perda de peso, esta medicação é considerada promissora no tratamento do diabetes tipo 2.

Doutora em Endocrinologia – USP/SP
Residência Médica em Endocrinologia – Hospital Brigadeiro/SP

Diabetes Mellitus tipo 2 : Como eu trato?

O Diabetes Mellitus tipo 2 é uma doença crônica, com predisposição genética, caracterizado por um quadro de resistência à ação do insulina e diminuição da produção de insulina pelas células beta do pâncreas.

A abordagem ao diabético deve ser individualizada.  Deve ser levado em consideração fatores tais como  a idade do paciente, quanto tempo o paciente tem de diagnóstico de diabetes, presença de comorbidades ou complicações relacionadas ao diabetes, presença de sobrepeso ou obesidade,  esteatose hepática ( gordura no fígado), entre outros fatores.

Sempre que possível, o paciente deve ser orientado para consultar uma nutricionista, visando a prescrição de uma reeducação alimentar, com ajuste na quantidade e tipo de carboidrato e gordura a ser ingerido, bem como a proporção de proteína. A prescrição de uma dieta mediterrânea low carb é uma excelente opção para o paciente portador de diabetes mellitus tipo  2.

Temos hoje um vasto leque de opções terapêuticas para o nosso paciente diabético: metformina ( Glifage XR®), as sulfoniluréias ( Diamicron MR, Amaryl®), os inibidores da DPP-4 ( Galvus, Januvia,Trayenta, Onglyza®), os análogos do GLP-1 ( Victoza, Trulicity®), as glitazonas ( Actos®), as gliflozinas (Forxiga, Jardiance, Invokana®), além da insulinoterapia.

A metformina é uma medicação consagrada no tratamento do diabetes. É segura, eficaz, amplamente disponível nos postos de saúde e no programa Farmácia Popular do Brasil, podendo ser usada em monoterapia ou em associação à todas as outras classes de medicamentos anteriormente citados. Recentemente foi aprovado o seu uso em pacientes com insuficiência renal leve a moderada. Pode apresentar efeitos indesejados em um pequeno grupo de pacientes, relacionados ao trato digestivo, tais como náusea e diarréia. Assim sendo, deve ser iniciada preferencialmente em dose baixa, com aumento escalonado, até atingir a dose máxima efetiva ( 2000 mg) diário.

As sulfoniluréias atuam aumentando a produção de insulina, e tem custo mais acessível quando comparado as gliptinas, glitazonas e glifozinas. Podem promover um pequeno ganho de peso e  hipoglicemia, especialmente em situações de redução na ingesta alimentar. Hoje temos dado preferência à sulfoniluréia de segunda geração gliclazida, de liberação prolongada ( Diamicron MR®) e  a de terceira geração glimepirida ( Amaryl® ). A glibenclamida está em desuso  em razão de interação com receptores do músculo do miocárdio, prejudicando a recuperação do músculo em um possível caso de isquemia do miocárdio. O estudo ADVANCE-ON que acompanhou a longo prazo pouco mais 8000 pacientes tratados intensivamente com gliclazida de liberação prolongada mostrou efeito em proteção renal do paciente diabético, sem comprometer a segurança cardiovascular.

Os inibidores da DPP-4  atuam aumentando uma substância chamada GLP-1, através da inibição de uma enzima chamada DPP-4.  É uma classe de medicamentos muito utilizada no tratamento do diabetes mellitus tipo 2, podendo ser usado em um amplo perfil de pacientes ( cardiopatas, idosos, portadores de insuficiência renal), tem efeito neutro no peso, e não oferecem risco de hipoglicemia  quando combinado a uma metformina, glitazona ou glifozina. É contraindicado em associação com os análogos do GLP-1. O estudo TECOS , com aproximadamente 14000 pacientes com doença cardiovascular estabelecida, mostrou segurança da medicação sitagliptina ( Januvia®), neste perfil de pacientes.

Os análogos do GLP-1 também agem aumentando o GLP-1, acarretando benefícios além do controle da glicemia. Podem promover  perda de peso médio de 03 kgs. São aplicados por meio de injeção subcutânea, indolor, administrados pelo próprio paciente. O Victoza® é administrado através de uma aplicação diária e o Trulicity® é administrado através de uma injeção semanal. O principal efeito colateral da classe é náusea e vômitos em até 20% dos pacientes, que tende a ser passageiro.

A pioglitazona atua melhorando a ação da insulina no tecido adiposo, músculo e fígado e a produção de insulina pela célula beta. É a medicação mais indicada no tratamento da esteatose hepática.Pode ser associada a todas as outras classes. Não deve ser utilizada em pacientes com insuficiência cardíaca e portadores de osteoporose. Pode provocar um pequeno ganho de peso.

A gliflozina é a classe mais recentemente lançada no mercado. Promove eliminação de glicose pela urina ( em torno de 80 gramas por dia). Costuma provocar perda de peso em média de 03 kg,  e também pode provocar uma pequena redução na pressão arterial. Um estudo recente chamado EMPA-REG mostrou redução da mortalidade por doença cardiovascular em 38% e redução das internações por insuficiência cardíaca em 35% no grupo que utilizou a empagliflozina ( Jardiance®), após apenas três anos de uso da medicação.

Portanto, a melhor escolha para o paciente com diabetes mellitus tipo 2 vai depender das necessidades individualizadas daquele paciente e do nível sócio-econômico.  As melhores combinações para o bom controle glicêmico aliado a perda de peso são análogos do GLP-1 e glifozina. Se o paciente tiver gordura no fígado, a associação de pioglitazona deve ser considerada. Se o custo da medicação for um fator importante, a metformina e sulfoniluréia são as melhores opções. Se o paciente for idoso, ou se a perda de peso não for um fator importante, as gliptinas constituem uma ótima opção.

Enfim, existem inúmeros meios para atingir o bom controle da glicemia e evitar assim as complicações do diabetes.

O diabetes mellitus tipo 2  é uma doença silenciosa, que deve ser tratada de maneira adequada, afim de evitar as complicações relacionadas aos grandes vasos ( infarto agudo do miocárdio, derrame cerebral),  aos pequenos vasos ( cegueira e insuficiência renal crônica), e disfunção de nervos e vasos ( impotência sexual, amputação em membros inferiores). Uma vez bem manejada, e de preferência precocemente, desde o diagnóstico, o risco de desenvolver as complicações supracitadas é pequeno. As complicações estão relacionadas ao mau controle do diabetes, especialmente quando a hemoglobina glicada é superior a 7% ( corresponde a uma média na glicemia de 154 mg/dl). Quanto maior a hemoglobina glicada, maior é o risco para o aparecimento de complicações.

O endocrinologista é o profissional especialista no  tratamento do diabetes e o  mais capacitado para propor o melhor tratamento para o paciente de acordo com sua condição clínica.

 

 

 

 

 

Especialista em Endocrinologia e Metabologia
Conselheiro do Conselho Regional de Medicina
Presidente da Câmara Técnica de Endocrinologia do CRM
Membro da Câmara Técnica de Registro de Especialistas do CRM
Médico Concursado da Secretaria de Estado de Saúde atuando na função de Regulador e Teleconsultor

Pâncreas artificial aprovado pelo FDA

O FDA acabou de aprovar o primeiro pâncreas artificial, que consiste de uma bomba de insulina de alça fechada híbrida, a qual automaticamente  monitora a glicose no sangue e administra a dose de insulina necessária. Está aprovada para pacientes a partir de 14 anos de idade com diabetes mellitus tipo 1.

Devido ao fato que o dispositivo corrige tanto as glicemias baixas, quanto as elevadas ( os atuais corrigem apenas a hipoglicemia), está sendo chamada de primeiro pâncreas artificial. Entretanto, como os pacientes ainda precisam colocar a quantidade de   carbohidratos ingeridos antes das refeições e requisitar ao dispositivo para fornecer a dose de insulina bolus ( da refeição), na verdade é um sistema híbrido ao invés de um completo sistema de alça fechada.

O sistema compreende um monitor continuo de glicose ligado ao tecido subcutâneo, o qual  verifica os níveis de glicose a cada 05 minutos. Uma bomba de insulina  lê a glicose e libera a insulina de acordo com os valores. Antes das refeições, o paciente digita a quantidade aproximada de carbohidratos que ingeriu e o sistema calcula a dose de insulina a ser liberada.

No estudo realizado com o dispositivo, não ocorreram eventos adversos sérios, tais como cetoacidose diabética e  hipoglicemia severa.

A fabricante  (Medtronic) está atualmente realizando estudos clínicos para avaliar a segurança e efetividade do dispositivo em crianças entre 7 a 13 anos de idade com diabetes tipo 1.

Este é um grande avanço na direção da cura do diabetes tipo 1. A expectativa é que este dispositivo deverá facilitar bastante o controle da doença, contribuindo para que o paciente atinja as metas de glicemia e hemoglobina glicada ( inferior a 7%), e diminuindo consideravelmente o risco de complicações crônicas.

O dispositivo chama-se sistema MiniMed 670G , e com este lançamento, estamos a um passo do sistema de alça fechada completo, que libera automaticamente a insulina de acordo com a glicemia, tanto no basal ( longe das refeições), quanto nas refeições.

A previsão é que estará no mercado americano no início de 2017. Não há previsão para sua chegada ao Brasil, nem o custo.

Doutora em Endocrinologia – USP/SP
Residência Médica em Endocrinologia – Hospital Brigadeiro/SP

Diabetes Mellitus tipo 2 : qual o melhor tratamento?

Introdução

O diabetes mellitus tipo 2 é hoje um dos maiores problemas de saúde em todo o mundo. Atualmente, mais de 250 milhões de pessoas convivem com a doença, mas a previsão que este número chegue a 380 milhões, em 2025. O Brasil ocupa a 4ª posição entre os países com maior prevalência de diabetes: são 13,7 milhões de pessoas, e muitas ainda nem foram diagnosticadas.

O excesso de peso é o grande vilão por trás desta pandemia. Além do fator genético, o diabetes é uma doença totalmente ligada ao estilo de vida adotado. Uma pessoa com alimentação desequilibrada, rica em gorduras, carboidratos, açúcares e produtos industrializados, e pobre em vegetais, legumes e frutas têm mais propensão a desenvolver o diabetes. Sedentarismo, obesidade e tabagismo também são fatores de risco e, juntos, contribuem para o aparecimento da doença.

Quando o indivíduo recebe o diagnóstico de diabetes mellitus tipo 2, ele já perdeu uma boa parte das células produtoras de insulina ( pelo menos 50%), também chamadas células beta. Manter a doença controlada, preservando as células beta restantes é o maior objetivo. Com isto reduz-se acentuadamente o risco de complicações crônicas, sejam elas macrovasculares, tais como infarto e derrame cerebral, ou microvasculares, tais como doença nos rins, nos olhos e nos nervos periféricos.

A meta para o tratamento deve ser individualizada, levando em consideração especialmente idade do paciente, tempo de diagnóstico e presença de complicações crônicas. Hemoglobina glicada acima de 7% aumenta o risco de complicações relacionadas ao diabetes mellitus.

Como tratar o Diabetes Mellitus tipo 2

1) Dieta

A dieta mais adequada deve objetivar oferecer carbohidratos com baixo índice glicêmico ( menor poder de elevação da glicemia), especialmente aqueles ricos em fibras. Além de facilitar o controle da glicemia, a fibra contribui para a distensão do estômago e aumenta a saciedade. Deve ser orientada por um nutricionista.

2) Atividade física

A prática de exercícios físicos deve ser estimulada. Os principais benefícios do exercício no diabetes mellitus tipo 2 são auxiliar a manutenção do peso corporal;aumentar a sensibilidade à insulina, reduzir a pressão arterial e aumentar o colesterol bom ( HDL); contribuir para a manutenção dos ossos, músculos e articulações;melhora do bem-estar, reduzindo risco de ansiedade e depressão; melhorar a resposta imunológica, fortalecendo as defesas do organismo.

3) Medicamentos

O uso de medicamentos para auxiliar o controle do diabetes mellitus tipo 2 deve ser indicado, com o intuito de ajudar a manter a longo prazo a doença controlada, intervindo de maneira positiva nos mecanismos geradores dessa doença.

Temos hoje disponíveis para o tratamento diversas classes de medicamentos, que devem ser selecionados de acordo com as características de cada paciente.

3.1) Metformina

A metformina aumenta especialmente a captação de glicose pelo fígado. É utilizada geralmente como primeira escolha no tratamento em razão de sua efetividade ( pode reduzir a hb glicada até 2%), baixo custo e segurança. Seu principal efeito adverso é gastrointestinal ( náuseas, vômitos). A formulação de liberação gastro-intestinal ( XR) tem melhor tolerância gastrointestinal.

3.2 ) Sulfoniluréias

Aumentam a produção de insulina.Temos como exemplos dessa classe a glibenclamida, gliclazida, gliclazida MR e glimepirida. São medicamentos potentes na redução de hb glicada ( até 2%), tendo como efeitos indesejados principais o risco de hipoglicemia e aumento do peso corporal.

3.3) Glitazonas

Aumenta a sensibilidade à insulina, agindo no tecido gorduroso, músculo  e fígado. A medicação desta classe é a pioglitazona. Não devem ser utilizados em portadores de insuficiência cardíaca e osteoporose, em razão de aumentar a retenção hídrica e o risco de fraturas. Podem provocar um pequeno ganho de peso. É a medicação com maior benefício para reduzir a gordura no fígado ( esteatose hepática).

3.4) Gliptinas ( Inibidores da DPP-4)

Aumentam a produção de insulina e reduzem o glucagon, através do incremento na produção de uma substância produzida no intestino chamada GLP-1. São seguras , tem boa tolerabilidade, e não costumam provocar hipoglicemia. Tem efeito neutro no peso corporal.

3.5) Análogos do GLP-1 

Também aumentam a produção de insulina, reduzindo o glucagon, através do aumento do GLP-1 ( incremento maior que o produzido pelos inibidores da DPP-4). Promovem perda de peso, redução da pressão arterial. Os principais efeitos adversos são náuseas, vômitos e diarréia. As principais opções disponíveis no mercado hoje são o liraglutide ( Victoza) e a Dulaglutida ( Trulicity). O Victoza é administrado através de uma única aplicação subcutânea diária e o  Trulicity é administrado através de uma aplicação semanal, também subcutânea.

3.6) Gliflozinas 

Agem inibindo o transportador 2 da glicose no túbulo proximal do rim, promovendo a eliminação de açúcar na urina. Estão contra-indicados para portadores de insuficiência renal moderada a grave. Promovem redução no peso e na pressão arterial. Temos três opções no mercado: dapagliflozina ( Forxiga), empagliflozina ( Jardiance) e canagliflozina ( Invokana). O estudo EMPA-REG mostrou redução de 38% na mortalidade por causas cardiovasculares em um periodo de 04 anos de estudo, quando comparou a medicação empagliflozina  ao grupo controle. Considerando que a principal causa de morte em pacientes diabéticos é por doença cardiovascular, o resultado deste estudo trouxe bastante entusiasmo para o tratamento destes pacientes.

Conclusão

O arsenal terapêutico atual para o controle do diabetes é amplo e permite que o médico especialista possa escolher as melhores alternativas de maneira individualizada, considerando as características clínicas de cada paciente.

Para os pacientes que precisam controlar a doença e perder peso, as opções das gliflozinas e análogos do GLP-1 são ótimas escolhas.

Para os idosos que necessitam de segurança no tratamento, com eficácia e menor risco de hipoglicemias, uma boa opção é a classe dos inibidores da DPP-4.

Para os individuos com muita gordura no fígado, uma ótima   opção é a pioglitazona.

Existem inúmeros tratamentos corretos para um mesmo indivíduo. O médico assistente deve avaliar, entre todas as opções possíveis, aquelas que se encaixam ao perfil do paciente, afim de atingir o sucesso no tratamento.

 

 

 

Especialista em Endocrinologia e Metabologia
Conselheiro do Conselho Regional de Medicina
Presidente da Câmara Técnica de Endocrinologia do CRM
Membro da Câmara Técnica de Registro de Especialistas do CRM
Médico Concursado da Secretaria de Estado de Saúde atuando na função de Regulador e Teleconsultor