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Dieta sem Glúten – Separando o Joio do Trigo

Introdução

Durante a última década houve um aumento impressionante na popularidade da dieta sem glúten, sendo nos dias atuais o tratamento nutricional da moda no mundo inteiro, incluindo o Brasil. Questionando o conceito de que dieta sem glúten beneficiaria apenas indivíduos portadores de doença celíaca, profissionais da saúde tem relutado em separar o joio do trigo.  Há um clamor que eliminar o glúten da dieta aumenta a saúde e ajuda no emagrecimento, ou até mesmo que o glúten pode ser danoso a todo o ser humano.

Entretanto, à parte de modismos infundados, uma doença relacionada à ingestão de glúten, ou cereais que contenham glúten, chamada de sensibilidade ao glúten não-celíaco, tem ressurgido na literatura, incendiando o debate sobre a indicação de dieta sem glúten para pessoas sem diagnóstico de doença celíaca.

Sensibilidade ao glúten foi inicialmente diagnosticado na década de 1970, mas na última década os números de pacientes com este diagnóstico, assim como o número de publicações tem aumentado consideravelmente.

Ainda não está bem claro como diagnosticar ou manejar esta condição, e os mecanismos causadores são incertos, mas sabe-se que ocorre uma ativação do sistema imunológico inato, tendo efeitos deletérios em outras doenças autoimunes e doenças metabólicas concomitantes.

 Quando indicar dieta sem glúten para não-celíacos?

– Quando o paciente apresentar sintomas do trato gastrointestinal, tais como: dor abdominal, gases, estufamento ,meteorismo, ou extra-intestinais, tais como: dor de cabeça, fadiga crônica, dor muscular ou nas articulações, formigamento das extremidades, eczema, anemia ou depressão, que  aparecem horas ou dias após a ingestão de grãos contendo glúten, e desparecem rapidamente quando são eliminados da dieta.

– Em crianças que apresentem diarréia crônica sem perda de peso, além  de déficit de atenção.

Qual a diferença entre doença celíaca e sensibilidade ao glúten?

–   Na sensibilidade ao glúten, os auto-anticorpos contra componentes do glúten estão ausentes, na biópsia intestinal não são detectadas alterações inflamatórias na mucosa, exceto um leve aumento nos linfócitos intraepitelial, e os marcadores genéticos da doença celíaca estão ausentes ( HLA DQ2/8).

–  Diferentemente da doença celíaca, o diagnóstico da sensibilidade ao glúten é predominantemente clínico, ao se observar melhora dos sintomas gastrointestinais ou extra-intestinais com a retirada do glúten, e piora com a reintrodução.

Qual a prevalência da Sensiblidade ao Glúten?

– Muitas pessoas fazem dieta sem glúten por conta própria, sem indicação médica. Portanto, a prevalência é desconhecida.

– Acredita-se que é um problema relativamente comum, sendo responsável por cerca de um terço dos pacientes com diagnóstico de Síndrome do Intestino Irritável*.

– Mais comum que a doença celíaca

– Mais comum em mulheres e adultos jovens

– Pode estar associada ao autismo, esquizofrenia, alergias e doenças autoimunes.

Conclusão

A dieta sem glúten é muito propagada e recomendada por nutricionistas nos dias atuais. Quando o paciente tem sintomas relacionados ao trato gastrointestinal, ou extra-intestinais de causa desconhecida, é importante inicialmente realizar uma completa investigação clínica para afastar causa secundária, especialmente doença celíaca.

Se não for encontrada uma causa que justifique os sintomas clínicos, o diagnóstico de sensibilidade ao glúten, nesta situação, deve ser pensado e um teste terapêutico ser realizado, com a retirada do glúten e reavaliação.

A prática de propor a retirada do glúten para os pacientes, de maneira universal, sem critérios de seleção, como parte de um programa de emagrecimento, não deve ser realizada, pois não há evidências científicas sólidas que indiquem um real benefício, pois  o glúten costuma trazer malefícios apenas para um perfil específico de pacientes.

* Síndrome do Intestino Irritável – termo aplicado a uma associação de sintomas, que consistem mais frequentemente de dor abdominal, estufamento, constipação e diarréia, sem causa orgânica identificável.

Fonte:Fasano, A et al. Nonceliac gluten sensitivity. Gastroenterology 2015 Vol:148 No:6 Págs: 1195-204

Especialista em Endocrinologia e Metabologia
Conselheiro do Conselho Regional de Medicina
Presidente da Câmara Técnica de Endocrinologia do CRM
Membro da Câmara Técnica de Registro de Especialistas do CRM
Médico Concursado da Secretaria de Estado de Saúde atuando na função de Regulador e Teleconsultor