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Diabetes Mellitus tipo 2 : qual o melhor tratamento?

Introdução

O diabetes mellitus tipo 2 é hoje um dos maiores problemas de saúde em todo o mundo. Atualmente, mais de 250 milhões de pessoas convivem com a doença, mas a previsão que este número chegue a 380 milhões, em 2025. O Brasil ocupa a 4ª posição entre os países com maior prevalência de diabetes: são 13,7 milhões de pessoas, e muitas ainda nem foram diagnosticadas.

O excesso de peso é o grande vilão por trás desta pandemia. Além do fator genético, o diabetes é uma doença totalmente ligada ao estilo de vida adotado. Uma pessoa com alimentação desequilibrada, rica em gorduras, carboidratos, açúcares e produtos industrializados, e pobre em vegetais, legumes e frutas têm mais propensão a desenvolver o diabetes. Sedentarismo, obesidade e tabagismo também são fatores de risco e, juntos, contribuem para o aparecimento da doença.

Quando o indivíduo recebe o diagnóstico de diabetes mellitus tipo 2, ele já perdeu uma boa parte das células produtoras de insulina ( pelo menos 50%), também chamadas células beta. Manter a doença controlada, preservando as células beta restantes é o maior objetivo. Com isto reduz-se acentuadamente o risco de complicações crônicas, sejam elas macrovasculares, tais como infarto e derrame cerebral, ou microvasculares, tais como doença nos rins, nos olhos e nos nervos periféricos.

A meta para o tratamento deve ser individualizada, levando em consideração especialmente idade do paciente, tempo de diagnóstico e presença de complicações crônicas. Hemoglobina glicada acima de 7% aumenta o risco de complicações relacionadas ao diabetes mellitus.

Como tratar o Diabetes Mellitus tipo 2

1) Dieta

A dieta mais adequada deve objetivar oferecer carbohidratos com baixo índice glicêmico ( menor poder de elevação da glicemia), especialmente aqueles ricos em fibras. Além de facilitar o controle da glicemia, a fibra contribui para a distensão do estômago e aumenta a saciedade. Deve ser orientada por um nutricionista.

2) Atividade física

A prática de exercícios físicos deve ser estimulada. Os principais benefícios do exercício no diabetes mellitus tipo 2 são auxiliar a manutenção do peso corporal;aumentar a sensibilidade à insulina, reduzir a pressão arterial e aumentar o colesterol bom ( HDL); contribuir para a manutenção dos ossos, músculos e articulações;melhora do bem-estar, reduzindo risco de ansiedade e depressão; melhorar a resposta imunológica, fortalecendo as defesas do organismo.

3) Medicamentos

O uso de medicamentos para auxiliar o controle do diabetes mellitus tipo 2 deve ser indicado, com o intuito de ajudar a manter a longo prazo a doença controlada, intervindo de maneira positiva nos mecanismos geradores dessa doença.

Temos hoje disponíveis para o tratamento diversas classes de medicamentos, que devem ser selecionados de acordo com as características de cada paciente.

3.1) Metformina

A metformina aumenta especialmente a captação de glicose pelo fígado. É utilizada geralmente como primeira escolha no tratamento em razão de sua efetividade ( pode reduzir a hb glicada até 2%), baixo custo e segurança. Seu principal efeito adverso é gastrointestinal ( náuseas, vômitos). A formulação de liberação gastro-intestinal ( XR) tem melhor tolerância gastrointestinal.

3.2 ) Sulfoniluréias

Aumentam a produção de insulina.Temos como exemplos dessa classe a glibenclamida, gliclazida, gliclazida MR e glimepirida. São medicamentos potentes na redução de hb glicada ( até 2%), tendo como efeitos indesejados principais o risco de hipoglicemia e aumento do peso corporal.

3.3) Glitazonas

Aumenta a sensibilidade à insulina, agindo no tecido gorduroso, músculo  e fígado. A medicação desta classe é a pioglitazona. Não devem ser utilizados em portadores de insuficiência cardíaca e osteoporose, em razão de aumentar a retenção hídrica e o risco de fraturas. Podem provocar um pequeno ganho de peso. É a medicação com maior benefício para reduzir a gordura no fígado ( esteatose hepática).

3.4) Gliptinas ( Inibidores da DPP-4)

Aumentam a produção de insulina e reduzem o glucagon, através do incremento na produção de uma substância produzida no intestino chamada GLP-1. São seguras , tem boa tolerabilidade, e não costumam provocar hipoglicemia. Tem efeito neutro no peso corporal.

3.5) Análogos do GLP-1 

Também aumentam a produção de insulina, reduzindo o glucagon, através do aumento do GLP-1 ( incremento maior que o produzido pelos inibidores da DPP-4). Promovem perda de peso, redução da pressão arterial. Os principais efeitos adversos são náuseas, vômitos e diarréia. As principais opções disponíveis no mercado hoje são o liraglutide ( Victoza) e a Dulaglutida ( Trulicity). O Victoza é administrado através de uma única aplicação subcutânea diária e o  Trulicity é administrado através de uma aplicação semanal, também subcutânea.

3.6) Gliflozinas 

Agem inibindo o transportador 2 da glicose no túbulo proximal do rim, promovendo a eliminação de açúcar na urina. Estão contra-indicados para portadores de insuficiência renal moderada a grave. Promovem redução no peso e na pressão arterial. Temos três opções no mercado: dapagliflozina ( Forxiga), empagliflozina ( Jardiance) e canagliflozina ( Invokana). O estudo EMPA-REG mostrou redução de 38% na mortalidade por causas cardiovasculares em um periodo de 04 anos de estudo, quando comparou a medicação empagliflozina  ao grupo controle. Considerando que a principal causa de morte em pacientes diabéticos é por doença cardiovascular, o resultado deste estudo trouxe bastante entusiasmo para o tratamento destes pacientes.

Conclusão

O arsenal terapêutico atual para o controle do diabetes é amplo e permite que o médico especialista possa escolher as melhores alternativas de maneira individualizada, considerando as características clínicas de cada paciente.

Para os pacientes que precisam controlar a doença e perder peso, as opções das gliflozinas e análogos do GLP-1 são ótimas escolhas.

Para os idosos que necessitam de segurança no tratamento, com eficácia e menor risco de hipoglicemias, uma boa opção é a classe dos inibidores da DPP-4.

Para os individuos com muita gordura no fígado, uma ótima   opção é a pioglitazona.

Existem inúmeros tratamentos corretos para um mesmo indivíduo. O médico assistente deve avaliar, entre todas as opções possíveis, aquelas que se encaixam ao perfil do paciente, afim de atingir o sucesso no tratamento.

 

 

 

Especialista em Endocrinologia e Metabologia
Conselheiro do Conselho Regional de Medicina
Presidente da Câmara Técnica de Endocrinologia do CRM
Membro da Câmara Técnica de Registro de Especialistas do CRM
Médico Concursado da Secretaria de Estado de Saúde atuando na função de Regulador e Teleconsultor

Pré-diabetes: o que você precisa saber

Definição

Pré-Diabetes é definido como o aumento da glicose no sangue insuficiente para ser definido como diabetes, ou seja, quando a glicemia está entre 100 e 125 mg/dl no jejum, entre 140 e 199 mg/dl após o teste de tolerância à glicose ou hemoglobina glicada ( A1C) entre 5,7 a 6,4%.

É importante destacar que pessoas com pré-diabetes frequentemente tem outros fatores de risco para o coração e circulação, tais como obesidade, pressão alta, e aumento de colesterol, apresentando aumento do risco para Infarto Agudo do Miocárdio e Derrame Cerebral.

Como manejar o pré-diabetes

Pacientes com pré-diabetes devem ser encaminhados para um acompanhamento nutricional e programa de aconselhamento para atividade física, buscando um alvo de perda ponderal em torno de 7% do peso corporal e aumentar a atividade física para o mínimo de 150 minutos por semana.

Exercícios de resistência, tais como levantamento de peso, tem efeito benéfico na circunferência abdominal, melhora na sensibilidade insulínica, e diminuição do risco para diabetes.

Quatro grandes estudos mostraram uma robusta redução na progressão para diabetes com as mudanças acima citadas: o Diabetes Prevention Program ( DPP) mostrou redução de 58% em 03 anos; o estudo Da Qing 43% em 20 anos; o Finnish Diabetes Prevention Study ( DPS) 43% em 07 anos; redução de 34% em 10 anos no U.S. Diabetes Prevention Program Outcomes Study ( DPPOS).

A medicação metformina deve ser considerada especialmente para aqueles com Indice de Massa Corporal > 35 kg/m2 ( cálculo disponível na nossa home page), aqueles com menos de 60 anos de idade, e mulheres com Diabetes Gestacional prévia.

Uma medicação promissora para normalizar a glicemia e evitar a progressão para diabetes é o liraglutide (Saxenda®), recém-chegada ao mercado brasileiro, e aprovada para o tratamento da obesidade.

Tecnologia no controle do pré-diabetes

A tecnologia pode ser um meio efetivo para atingir os objetivos supracitados. Estudos recentes dão suporte aos pequenos grupos virtuais da internet para perda de peso, aplicativos de telefones celulares e outros dispositivos. Aplicativos de celulares para emagrecimento e prevenção de diabetes tem sido validados pela sua capacidade em reduzir a média glicêmica em indivíduos com pré-diabetes.

O pedômetro, um dispositivo para registrar a sua caminhada diária, pode ser um grande aliado para uma vida mais ativa. Para aqueles indivíduos em que seja recomendado atividades físicas de nível moderado, o objetivo é realizar 10.000 passos por dia.

Fonte: Prevention or Delay of Type 2 Diabetes. Diabetes Care 2016;39(Suppl. 1):S36–S38| DOI: 10.2337/dc16-S007

Especialista em Endocrinologia e Metabologia
Conselheiro do Conselho Regional de Medicina
Presidente da Câmara Técnica de Endocrinologia do CRM
Membro da Câmara Técnica de Registro de Especialistas do CRM
Médico Concursado da Secretaria de Estado de Saúde atuando na função de Regulador e Teleconsultor